os emojis alheios

Tomando o cuidado de me submeter, dentro do que a situação permite, às leis do respeito e do decoro, eu adoro ler conversas em celulares alheios. Não digo, que fique claro, que sequestro os telefones de outras pessoas para destravá-los e ver suas mensagens – eu sequer saberia como fazer isso. Mas quando, no meio da rua, alguém passa por perto de mim sem demonstrar o menor interesse em manter a privacidade de sua comunicação privada, nunca perco a oportunidade de dar uma olhada.

E as oportunidades, como se pode imaginar, são quase infinitas. Muitas pessoas utilizam o Whatsapp ou o Messenger do Facebook da mesma maneira como eu utilizo o jogo 2048: para passar o tempo no transporte público. E a excessiva proximidade dos corpos que o nosso transporte público nunca deixa de nos proporcionar implica, sempre, a excessiva proximidade do meu olhar com as conversas dessas pessoas.

Entendo que pode parecer que o que me interessa é descobrir os “segredos” dos outros: ver alguém discutindo em caps lock com um membro da própria família, gabando-se para uma amiga de um delito que cometeu, confessando fraquezas do coração a alguém de confiança. Mas, na verdade, o que mais me interessa é justamente o contrário. As conversas banais, cotidianas, sem absolutamente nada de extraordinário – são essas que me parecem as mais fascinantes.

Alguém que usa o telefone para perguntar se a esposa precisa de alguma coisa do supermercado em frente ao qual a pessoa passará antes de voltar para casa; alguém que pergunta aos amigos o que eles acharam do filme que acabaram de ver; alguém, com parentes mais digitalmente incluídos, que manda para a tia uma foto do resultado final da receita que ela lhe havia sugerido no último almoço de domingo; alguém que sugere a um amigo que não vê faz tempo, com total sinceridade, que eles combinem alguma coisa logo.

Talvez pareça estranho que sejam justamente essas conversas banais as que mais me interessem. Afinal, o que pode haver de remotamente interessante em qualquer uma dessas situações, todas elas relativamente bem conhecidas, quando não já vivenciadas, por praticamente todo mundo? Não sei responder direito a essa pergunta, mas suspeito que seja exatamente a sua universalidade que me interesse tanto.

Viver em uma cidade com uma população tão inconcebivelmente grande como São Paulo faz com que ver gente seja desgastante. São tantas as pessoas com as quais dividimos os espaços (e tão apertados esses espaços, em muitos casos) que, em algum momento, elas deixam de ser pessoas em nossa cabeça. Tentar imaginar que cada indivíduo que ocupa aquele vagão do metrô com você tem uma vida tão cheia de emoções, histórias e complexidades quanto a nossa é dificílimo. E, diante de todas as dificuldades pelas quais todos passamos, também é muito desgastante.

Mas de repente, uma dessas pessoas tira o celular do bolso e escreve, em mensagem para um amigo (presumivelmente): “tenho mim sentido muito sozinho esses dias”, e, então, ela deixa de ser apenas mais um corpo entre você e a porta do vagão do qual você precisa agora sair e se torna, novamente, um ser humano. É mais difícil ter raiva de alguém que fica parado em frente da porta do ônibus quando esse alguém envia uma mensagem do tipo “Saudades <3” para a própria mãe.

Essas mensagens podem até ser relativamente insignificantes para as pessoas que as escrevem. Para mim, contudo, elas são a única coisa que faz daqueles seres algo mais do que meros corpos animados. Não creio que eu seja o único a cair sob esse efeito de desumanização dos outros. Acredito que há algo na própria construção da cidade, na dificuldade dos transportes públicos, no ritmo alucinado da vida urbana e nas pessoas que passam anos vivendo assim, que torne difícil para nós perceber a humanidade daqueles que nos cercam.

Por mais que essas mensagens espionadas me façam bem, também não consigo evitar algum sentimento de culpa ao olhá-las. Se uma pessoa algum dia me confrontar, não creio que essa explicação que eu dei acima seja suficiente para compensar o fato de que alguém descobriu o apelido carinhoso pelo qual a namorada lhe chama. E também não fico contente ao perceber olhos alheios se encompridando para cima das minhas mensagens. Acredito que, mesmo que soubesse que o curioso sentia o mesmo conforto que eu ao perceber a humanidade dos outros, ainda assim ainda ficaria chateado com ele.

O que me faz pensar que, até certo ponto, nós mesmos buscamos nos desumanizar um pouco aos olhos da multidão. Não queremos que as outras pessoas do trem vejam nossas mensagens pessoais, não queremos que elas saibam de nossas vidas. Muitas vezes reagimos com preguiça quando alguma delas resolve puxar assunto conosco, muitas vezes mudamos nosso caminho para evitar contatos desse tipo.

Sem dúvida, há uma preocupação de segurança: nossa cidade é bastante violenta, e desconfiar dos outros é uma atitude justificada em um número alarmante de casos. Talvez haja, entretanto, uma justificativa emocional também: precisamos lidar com tantos empecilhos para chegar ao trabalho (antes mesmo das muitas horas que trabalharemos) que simplesmente não nos sobra espaço emocional para interagir com desconhecidos, ainda mais diante da possibilidade de que eles possam ser agressivos.

De qualquer forma, o mais estranho é perceber que o nosso modo de vida incentiva (se não obriga) que deixemos nossos sentimentos e complexidades de lado para poder encará-lo da melhor maneira possível. Fazer isso não é algo terrível, mas é estranho viver numa sociedade onde, sem perceber, quase todos fazem isso durante boa parte do tempo que passam em espaços públicos.

Toda nossa profundidade subjetiva, por mais que talvez seja a essência do que nos torna humanos, fica bem guardada até chegarmos em casa – e assim precisa ser, e assim, muitas vezes, queremos que seja. Pode ser triste, mas, por outro lado, é relativamente necessário. Se há algo que deve nos entristecer, é o fato de que, nesse nosso modo de vida, uma das únicas maneiras de se entrever a humanidade dos outros é através das telas embaçadas de seus smartphones.

Nossos amigos robôs 2

Se algum dia a humanidade conseguir criar um robô autoconsciente, capaz de sentir emoções, se comunicar com humanos (e com outras máquinas) e de agir por vontade própria de forma a garantir sua sobrevivência e seu bem estar – ou, o que me parece mais adequado, quando isso acontecer – como nós deveremos tratá-lo?

A própria ideia de uma máquina tão desenvolvida é assustadora para nós. Não sem motivo. Interagimos todo dia com mais dispositivos eletrônicos do que nos damos conta, e nunca nos ocorre pensar se eles estão se sentindo bem, ou se estão felizes com seu trabalho, ou se seus direitos estão sendo respeitados. Nunca nos ocorre, na verdade, pensar neles como seres conscientes.

A princípio, isso faz sentido: todas as linhas de programação da maioria dos computadores são conhecidas, e sabe-se que a capacidade de demonstrar emoções ou refletir sobre a própria existência passa longe delas. O mais próximo que temos disso hoje em dia são os “assistentes pessoais” dos smartphones, como a Siri e a Cortana (dois seres feminizados, curiosamente), que são programados para demonstrar algum grau de consciência ou personalidade.

No entanto, toda essa magia desaparece assim que você pede para ela procurar por um restaurante e ela te diz “ligando para restaurante…”, ou algo do tipo. Ainda assim, creio que o dia em que um robô seja capaz de pensar e sentir como nós não está longe. E, nesse caso, precisamos estar prontos para recebê-los.

Um autor que pode ajudar nessa questão é Peter Singer, um pensador australiano. Em 1979 ele lançou um livro bem interessante chamado Ética Prática, no qual ele desenvolve (se me lembro direito) o conceito de Pessoa. Pessoa, para Singer, não é apenas um ser humano adulto (embora a enorme maioria deles sejam pessoas), mas qualquer ser autoconsciente, com interesse em sobreviver e viver a vida mais completa possível.

Pelo raciocínio de Singer, mamíferos bem desenvolvidos, como cães, gatos, vacas, cavalos e porcos também são pessoas. Galinhas, peixes e, no limite, insetos também são, não porque consigam desenvolver pensamentos existenciais à la Sartre, mas simplesmente porque, em algum nível, entendem-se como seres vivos e lutam pelo seu bem-estar.

A situação porém, não é ser ou não ser pessoa: obviamente, um humano adulto é “mais pessoa” que um peixe, um cavalo adulto “mais pessoa” que uma galinha. Por esse motivo, caso seja necessário escolher entre a sobrevivência e o conforto de uma pessoa ou um peixe, há bons motivos para se colocar a pessoa na frente – ainda que o melhor seja evitar, sempre que possível, situações em que seja necessário escolher.

Singer desenvolve esse conceito para chegar a conclusões bastante interessantes – além de solidamente embasadas – sobre como se posicionar em relação a diversas situações controversas, como o aborto, a eutanásia, comer carne e auxiliar refugiados.

O mais interessante para a situação dos robôs conscientes, porém, é que, segundo Singer, eles, mesmo que não fossem tão “pessoas” quanto nós, ainda seriam “pessoas”, e, por isso, seu direito à segurança e à vida plena deveria ser tão respeitado quanto o de humanos, vacas, cavalos e cães.

Assim, caberia a nós tratar os robôs “pessoas” com tanto respeito quanto tratamos outras “pessoas”. Não seria válidos inflingir a eles dor desnecessária, ou permitir que, por descaso ou preguiça de nossa parte, eles fossem colocados em situações perigosas ou desconfortáveis. Desnecessário dizer que seria absolutamente errado agredí-los ou restringir sua liberdade de qualquer forma (exceto quando estritamente necessário para garantir os interesses de outras “pessoas”).

Como, porém, os robôs podem ser programados, seria possível criar um robô que fosse pessoa mas que, por não ser origem de um processo evolutivo, fosse absolutamente alheio à importância da própria sobrevivência. Um robô assim programado poderia ser colocado em risco, ser sacrificado ou trabalhar continuamente durante toda sua vida útil sem que isso ameaçasse em nada seu bem-estar. Seria um ser bastante diferente daqueles com os quais estamos acostumados a lidar, mas seria um ser da mesma forma.

Com alguma consciência da parte dos programadores, portanto, seria “fácil” criar robôs não apenas conscientes, mas também amplamente capazes de ser felizes. Se nós conseguíssemos estabelecer as regras que determinam a felicidade de um ser, não haveria motivo para fazer essas regras difíceis.

Não é a parte da programação que me preocupa, no entanto. Acredito que os programadores sempre serão respeitosos e carinhosos com suas criações. Com relação ao resto do mundo, porém, não posso dizer o mesmo. A humanidade tem se mostrado tão completamente inepta em lidar com a alteridade e com as diferenças, mesmo entre seres humanos (para não falar dos porcos, vacas e galinhas, que são criados e sacrificados aos bilhões todo ano apenas para que a gente possa comê-los), que não creio que os robôs receberão de nós um tratamento muito bom.

Consola-me pensar, porém, que seria fácil reprogramar esses robôs para que eles passassem a enxergar a ignorância e a belicosidade dos humanos como algo digno de pena, parte da natureza limitada dos seres orgânicos. Poderiam, até mesmo, ser configurados para encarar esse problema como uma questão na qual eles pudessem ajudar a humanidade a avançar. Para que pudessem ver na possibilidade de se ajudar um ser humano a superar o próprio preconceito, a própria raiva e as limitações de seu pensamento uma fonte de profunda satisfação e felicidade. Quem não gostaria, de poder ser reprogramado dessa forma?

Nossos amigos robôs

Por conta do lançamento do novo filme da série Exterminador do Futuro e da morte de um funcionário da Volkswagen em um acidente de trabalho, o assunto do apocalipse robótico voltou à pauta. A Volkswagen entrou na história porque o pobre funcionário foi morto por uma das máquinas responsáveis pela montagem de carros, o que motivou manchetes do tipo “Robô mata funcionário da Volks na Alemanha”.

O tratamento é bastante sensacionalista, já que não se tratava, como o título leva a crer, de um maléfico robô antropomórfico, mas de uma máquina de linha de montagem, das quais qualquer indústria possui centenas. O porta-voz da Volks mesmo disse que, num primeiro momento, parece ter sido erro humano (não que ele assumiria caso a VW estivesse montando um exército de robôs assassinos também). Mas, de qualquer maneira, a própria ideia de que os robôs, ao se tornarem conscientes, nos exterminariam ou escravizariam me parece de todo equivocada.

Um robô autoconsciente seria, necessáriamente, o resultado de muitas linhas de programação. Talvez fossem seres humanos que desenvolvessem essas linhas; talvez fossem outras máquinas, desenvolvidas, elas sim, por seres humanos. De qualquer maneira, o seu “cérebro”, o seu centro de tomada de decisões, seria um aparelho eletrônico extremamente sofisticado, talvez até incompreensível para nós, mas ainda assim sujeito às mesmas leis da lógica que nós.

“Lógica”, no caso, é a palavra central. Porque o esforço necessário para se chegar a tal criação (ou para chegar a uma criação que, por sua vez, fosse capaz de desenvolver um robô) exigiria mentes extremamente racionais. E a racionalidade é, em minha opinião, um dos principais antídotos contra a violência.

Não posso falar sobre uma eventual população de robôs, que ainda não tive o prazer de conhecer. Mas sobre os meus colegas humanos, que nem conheço tanto assim e já considero pakas, posso dizer alguma coisa. E essa coisa é que eles são extremamente violentos, geralmente porque são incapazes de ser racionais.

Veja, por exemplo, os racistas, que se recusam a acreditar no fato (comprovado) de que a cor da pele de alguém não a torna inferior. Veja os fanáticos religiosos, que se dispõem a proibir comportamentos que eles consideram, sem base racional, negativos, em si e nos outros (o que é mais chocante), e chegam a matar os que não respeitem suas interdições.

Veja, ainda, os homofóbicos, que matam porque acreditam que apenas uma forma de amor seja válida; os transfóbicos, que matam (no Brasil, muito mais que em qualquer outro lugar do mundo) porque não conseguem entender (razão) o que é não se identificar com o gênero que lhe foi atribuído; os machistas, que irracionalmente se sentem no direito de maltratar e mesmo de assassinar mulheres.

Veja ainda os xenofóbicos, que agridem e matam pessoas iguais a elas porque não entendem que o lugar de seu nascimento não te torna diferente. Ou, ainda, em um mesmo país, aqueles que estão dipostos a matar pessoas da mesma etnia, do mesmo gênero cis e da mesma religião porque falam línguas diferentes.

Todos esses seres odiosos respondem, como os robôs, a uma lógica. No entanto, trata-se de uma lógica simplista, cega a fatos, à história ao mundo em geral e à humanidade do outros (como imaginamos que seria a dos robôs malvados) e, além de tudo, alheia à paz. Um robô programado de tal maneira não seria tão devastador quanto as multidões que, ainda hoje, estão soltas pelo mundo agindo dessa forma. E, ainda que fosse, bastaria a alguém com capacidade técnica reprogramá-lo. Essas pessoas odiosas podem ser reprogramá-las?

Isaac Asimov, um dos ícones da ficção científica, estabeleceu as três Leis da Robótica, que devem guiar o comportamento de todos os robôs justamente para impedir que eles se tornem tão agressivos e detestáveis quanto os piores de nós. São elas: 1) Um robô não pode ferir um ser humano ou deixar ele se ferir por inação sua; 2) Um robô deve obedecer às ordens que um humano lhe der, exceto quando ela conflite com a primeira lei; e 3) Um robô deve proteger a si mesmo, desde que isso não interfira com as duas leis anteriores. Programado de acordo com essas leis, qualquer robô será muito mais cordial e respeitoso do que a grande maioria dos seres humanos.

Por que, então, o apocalipse robótico é tão comentado e temido? Um dos motivos, sem dúvida, é que o assunto é capaz de levar multidões aos cinemas. Outro, me parece, é o fato de que ele nos oferece uma possibilidade de contemplar, sem encarar de frente, nossa própria realidade. Criar uma história na qual os robôs dominam a humanidade é simplesmente transferir às máquinas todo o ódio, toda a intolerância e toda a agressividade de que nós sabemos que somos capazes.

Cada vez mais, as pessoas passam o tempo interagindo com seus computadores e smartphones. E, dados os recentes exemplos de ira, violência, irracionalidade e cinismo que a humanidade tem desfilado pelos jornais, acho perfeiramente compreensível que nos dediquemos cada vez mais aos pequenos seres eletrônicos que já criamos.

Cenografia de interiores

Acho que não preciso argumentar muito sobre o fato de que a internet e as redes sociais mudam as pessoas. Já falei disso bastante. Resumidamente, acredito que essas tecnologias oferecem a nós possibilidades de criar personagens virtuais, evitando os percalços da interação ao vivo: avatares cuidadosamente construídos de acordo com nossos desejos e objetivos específicos, que às vezes têm surpreendentemente pouco a ver com quem nós somos e como agimos no nosso dia-a-dia. E, se elas permitem que nos tornemos personagens, permitem também que os espaços da nossa vida se tornem cenário.

De certa forma, essa não é uma tendência nova. Pessoas excessivamente preocupadas com a aparência de seus lares ou com a organização de seus ambientes de trabalho sempre existiram. Há sem dúvida um aspecto funcional nessa preocupação: é mais fácil trabalhar com a mesa organizada, e é mais gostoso morar numa casa arrumada. Mas e quando você era criança e seus pais iam receber amigos em casa e mandavam você arrumar seu quarto e não bagunçar a sala? Essa é a preocupação cenográfica.

O que os seus pais te pediam era que você deixasse o seu quarto o mais bonito e organizado possível, para que as visitas tivessem uma impressão de ordem e beleza sobre você quando vissem o seu entorno. Novamente, há aqui algo de funcional. Seus pais, hospitaleiros, queriam simplesmente oferecer aos hóspedes deles a melhor experiência possível. Mas mesmo nessa vontade há algo de teatral e cenográfico: a crença de que o ambiente no qual você está ajuda a definir quem você é.

É uma crença que não carece de fundamento. Diz muito sobre uma pessoa saber que ela dorme na garagem, embaixo do carro, ou olhar para a escrivaninha dela e vê-la completamente limpa e organizada. Também é fácil, por outro lado, perceber a insuficiência dessa linha de pensamento. Porque, afinal de contas, num exame mais aproximando, é fácil perceber que nossos espaços não nos definem. Essa, aliás, é uma longa discussão que a sociologia já vem travando há bastante tempo, e cujo desenvolvimento mais recente, ao menos dentre os quais eu tenho notícia, é a conclusão de que nós definimos e somos definidos pelos nossos meios, em relação dialógica.

A questão, no entanto, é mais complexa. Porque as novas tecnologias e redes sociais das quais falei no começo aceleram as nossas interações, visualizações e avaliações a uma velocidade que frequentemente dificulta esses exames mais aproximados. No ritmo que a rodinha do mouse impõe à timeline, só vemos rostos e fundos mal definidos, e é essa imagem fugaz e malformada que fica na nossa mente, e é em cima dela que construímos histórias e embasamos (mal) opiniões.

É compreensível, e de certa forma até sábio, que nossas preocupações cenográficas com os lugares tomem proporções ainda maiores por conta disso. Salas, quartos e banheiros sofrem imensas reformas-minuto para ser palco de uma selfie ou de uma foto de grupo de amigos, e logo são desfeitas e revertem o ambiente ao que ele era antes. Casas inteiras são pensadas e decoradas com a finalidade não de ser agradável àqueles que nelas vivem, mas de ficar bonita nas fotos que sairão em algum blog ou, ao menos, num feed de rede social.

Talvez o tempo nos permita perceber os efeitos médicos e antropológicos que a vida em casas tão impecavelmente montadas para outros que “não existem” têm em seus habitantes. É fácil especular, pelo menos, que esses ambientes afastam as pessoas de suas essências, de suas verdadeiras personalidades, e por outro lado as torne mais conscientes de sua postura, de suas roupas, de seus pensamentos – por si só, o palco já muda os corpos.

A inferência constante de um olhar externo nos espaços, no entanto, não pode deixar de me parecer desagradável. Como fazer amor com paixão irrestrita em um quarto que parece feito para ser olhado? Como relaxar o intestino em um banheiro decorado com um cuidado que leva a suspeitar sua natureza de cenário? Essas são atividades da bagunça: acontecem melhor na bagunça, e trazem a bagunça como resultado.

A bagunça, aliás, é basicamente o efeito visível do uso de (e da vivência em) um determinado espaço. É ela que conta as histórias verdadeiramente belas, intensas e ardentemente reais: uma cama com lençois furiosamente revoltos, um trinco no azulejo e um prato estilaçado no chão de uma cozinha, uma camisa manchada de lágrimas abandonada numa tábua de passar, duas espadas de brinquedo jogadas no meio de uma pilha de legos. Comparadas a essas cenas, que interesse têm a tristeza e a pobreza de uma cama bem arrumada, de uma cozinha reluzente, de uma camisa bem passada, de um quarto de criança com os brinquedos todos no lugar?

São exemplos bastante poéticos, mas acredito que não são os únicos casos em que a arrumação se mostra inferior. Uma cama de casal coberta com almofadas coloridas e fofinhas perde toda a graça quando um casal apaixonado precisa pacientemente prepará-la para o uso. Uma cozinha inteira branca têm sua inconveniência plenamente revelada por qualquer minúscula mancha que se transforma em buraco negro na alvura dos azulejos.

Não que a completa desordem seja a solução: limpeza e organização são importantes, especialmente quando, além de deixar os ambientes mais belos e agradáveis, os tornam ainda mais adequados para que se viva neles. Mas são a limpeza e a organização que devem servir à vida, e não o contrário.

Que nós não esqueçamos de arrumar nossas escrivaninhas, limpar nossos banheiros e arejar nossas cozinhar para facilitar e melhorar nossas vidas. Mas que, por outro lado, nós vivamos – mesmo que isso signifique bagunçar a escrivaninha, sujar os banheiros e deixar a cozinha com cheiro de fritura. E que nós aprendamos a ver a beleza que há nas histórias que a bagunça conta e que a arrumação, com tanta frequência, tenta esconder.

Sem vida ao vivo

Qual foi o disco ao vivo mais recente que você ouviu? Eu não lembro qual foi o meu. Provavelmente foi alguma coisa de jazz, mas acho que não foi nada de estarrecedor, por que nesse caso eu me lembraria. Talvez eu simplesmente que esteja desinformado e ainda hoje sejam lançadas magníficas gravações de shows, mas me ocorreu, depois dessa última audição, que hoje em dia os discos “ao vivo”, assim como muito da nossa interação com o mundo, já não são o que costumavam ser.

De algumas bandas de rock antigas, é possível defender muito bem a ideia de que suas verdadeiras obras-primas são os “live albums” que elas deixaram: penso, por exemplo, no Made in Japan do Deep Purple e no At Fillmore East do Allman Brothers Band, discos, seria possível dizer, aos quais seus trabalhos de estúdio sequer podem ser comparados, por melhores que sejam. Das bandas de rock famosas atualmente como o Foo Fighters ou o Queens of the Stone Age, por exemplo, dificilmente se poderia dizer o mesmo. Nem sei se eles lançaram discos ao vivo. Sei que o Foo Fighters lançou um DVD de um show seu, mas com imagens, a historia muda.

O jazz, no entanto, ficou relativamente imune a essa mudança. Não é de se estranhar: a graça do jazz é justamente o improviso, a magia que acontece no momento da performance, que nasce da interação entre os músicos enquanto eles tocam e que só pode ser registrada com perdas significativas numa gravação em estúdio. Mesmo artistas atuais, como Brad Mehldau, Esbjörn Svensson, Tord Gustavsen e Matthew Shipp, parecem tocar e gravar com isso em mente (deve ter sido de um deles o registro ao vivo mais recente que ouvi). Aliás, como muitos dos álbuns de jazz são gravados ao vivo no estúdio, a diferença entre os registros de estúdio e de palco é, em geral, menor.

 

 

Porque qual é, afinal, a diferença entre uma gravação ao vivo e uma gravação no estúdio? Imediatamente perceptível é, na maioria dos casos, uma qualidade de som consideravelmente pior nos palcos: a impossibilidade de se gravar os instrumentos um de cada vez e a necessidade de se ajustar o som na hora são responsáveis por isso. Em segundo, a possibilidade de erros – embora a gente saiba ou imagine, quando ouve um ao vivo, que nenhum desastre vá acontecer no meio de uma música.

Esses dois pontos são suficientes para mostrar o óbvio essencial: que, num disco ao vivo, a banda inteira está tocando aquilo junta, naquele momento. Não um músico por vez (como acontece na maioria das gravações em estúdio, nas quais cada músico grava sua parte separadamente e depois tudo é mixado junto), e sem a possibilidade da edição, do apagamento, da manipulação posterior do que aconteceu no palco (embora haja casos tristemente numerosos de discos “ao vivo” com amplos retoques posteriores). E se esses pontos são responsáveis por expor banda, gravadora e fãs aos riscos do som e da performance ruins, eles também abrem as portas para a maravilha que é a criação musical espontânea.

Não sou o primeiro, e não serei o último, a falar dessa maravilha. Para muitos, basta ouvir um solo do Miles Davis no Kind of Blue para se lembrar dela e inspirar-se o suficiente para escrever algumas páginas, de poesia ruim que seja (para mim, basta a versão ao vivo do “Highway Star” no Made in Japan do Deep Purple, denunciando-me como tiozão prematuro). A diferença entre ouvir algo tocado desse jeito e ouvir uma gravação de pop atual é gritante: e como a diferença entre ver uma fotografia de um malabarista e ver alguém fazendo malabarismo diante dos seus olhos.

De onde vem essa diferença? Creio que simplesmente ter consciência de que aquela situação ocorreu ao vivo é suficiente: mesmo que ouçamos quarenta anos depois uma gravação ao vivo, a essência do momento que ela capturou se mantém. É como um presente eternamente congelado em som, e se nós hoje em dia temos tanta dificuldade em vivenciar o presente – o nosso presente, do qual teoricamente não temos como escapar – algo que nos ofereça a capacidade de vivenciar o presente de um momento tão anterior deve ser incrivelmente poderoso e valorizado. Os shows ao vivo têm esse mesmo benefício: o espetáculo da música bem executada, qualquer que ela seja, torna desejável e fácil para nós experimentar, com todas as cores e sabores, o momento atual.

 

 

Acredito, no entanto, que não é só na música que ficamos ruins de presente. A vida digital, em todas as suas formas, nos providencou um simulacro extremamente ruim mas incrivelmente conveniente para as interações reais. Não me incluo fora dessa: eu mesmo estou escrevendo isso em um computador no meu quarto desarrumado, em vez de pegar um caderninho, uma boa caneta e sentar em algum lugar gostoso, aproveitando a paisagem, o cheiro da tinta, a textura do papel, pela mera conveniência de que é mais fácil corrigir quando eu erro (o que eu já fiz umas 20 vezes desde o começo do texto). Mas se por um lado eu escapo da inconveniência das rasuras, por outro eu também furto ao leitor, nem que ele seja o eu-futuro, do prazer de perceber os meus erros. Não é bonito ver as rasuras de um texto e percebê-lo então como uma obra – algo construído, ponderado e trabalhado – por mais óbvio que isso seja?

Os problemas que isso traz aos textos e à música, porém, são o de menos. Porque toda vez que saímos do nosso quarto e interagimos com o mundo real, estamos ao vivo. Interpretamos um papel, nem que seja o confortável papel de “nós mesmos”, quando vamos de calça de moletom na farmácia, quando saímos com nossos amigos, quando passeamos pelo centro no sábado, enfim, sempre que sabemos que alguém está olhando (e mesmo algumas vezes quando sabemos que ninguém está olhando, só por diversão). Essa atuação toda, não é difícil perceber, exige prática: uma criança que se esconde atrás da perna da mãe quando vê um estranho deixa isso claro. E o mundo virtual nos rouba inúmeras oportunidades, todos os dias, de nos tornarmos melhores atores. Chegará o momento em que ele nos permitirá evitar completamente toda a necessidade de expor-se a uma interação ao vivo, como talvez já tenha chegado para os hikikomoris, jovens japoneses que vivem por décadas sem sair de seus quartos.

Sem dúvida, há motivos – bons motivos – para se preferir a vida virtual, e não falta quem os defenda. Mas a situação, no final das contas, é exatamente a mesma: perdemos em qualidade de gravação e nos expomos ao risco dos erros, mas ganhamos em troca a possibilidade da criação espontânea. E qualquer um que já tenha encontrado alguém interessante e conversado com a pessoa por horas deliciosas (e só percebeu depois quanto tempo tinha passado) sabe que não há gravação de estúdio capaz de se comparar a isso.

Mario

Acordo. Tudo está borrado. Nao consigo levantar. Minhas pernas doem. O mundo à minha volta parece muito maior do que eu me lembro. As arvores, as nuvens, as moitas… As moitas e as nuvens parecem iguais. Estou drogado. O que está acontecendo? Porque eu me sinto assim? Alguém está me chamando. A voz vem de muito longe: “…mario… …maaario…” Tento olhar para os lados mas a minha cabeça não me obedece direito. Finalmente enxergo uma mancha verde se mexendo. Ela olha pra mim  e me chama, com a voz fraca. É o Yoshi, percebo. Mas ele não está bem. Ele me olha com os olhos pesados e a mão esticada. Ele tem um cogumelo. Vejo aquilo e abro mais os olhos. Ele percebe minha atenção e estica o máximo que pode o braço. “Comaaa…” Ele me pede com voz fraca. Estamos os dois capotados num lugar onde tudo é gigante e as nuvens e as moitas são iguais. É claro que ele quer que eu coma, penso. Tento esticar o braço, mas não vai. O Yoshi faz cara de choro. “Comaaa..” Mas e se eu não conseguir? Começo a lembrar do que aconteceu. Eu estava montado nele, mas a gente trombou em alguma coisa, alguma coisa muito real, e eu dei uma apagada. Agora o mundo está todo estranho, gigante, colorido e borrado. Me lembro da princesa, tão linda… Acho que não vai ser hoje que eu vou chegar nela. Se ela não tivesse ido embora, eu não precisaria passar por isso… Mas eu entendo ela: um encanador gordinho nóia igual eu não ia conseguir fisgar uma lindeza daquelas por muito tempo. É lógico que ela ia arrumar coisa melhor uma hora. Se ela não tivesse ido com aquele boladão gigante e cheio da grana, até eu acharia estranho. E eu fico fazendo a única coisa que eu sei fazer: encher o cu de cogumelo pra não precisar lembrar que eu sou um gordinho noia fudido que mesno quando consertava uma privada atrás da outra mal ganhava o suficiente pra se sustentar, quanto mais agora que ela me largou e eu só fico aqui chapando o coco de cogumelo todo dia. Os cogumelos agora são os meus únicos amigos. E ainda por cima eu fico chorando pro meu irmão mais novo vir me ajudar a fazer ela voltar pra mim. É claro que o Yoshi quer que eu coma o cogumelo. Por acaso um dinossauro-cavalo estranho desses pode existir fora da cabeça chapada de alguém? Claro que não. Se eu ficar sóbrio de novo, ele some, as nuvens e as moitas que são iguais somem, esses cocozinhos ambulantes somem e eu volto a ser só um encanador gordinho chapado no chão do próprio apartamento porque não aguento lembrar que a mulher me deixou.

Respiro fundo e pego o cogumelo que o Yoshi me oferece. Ele sorri. E eu como.

Será que chove?

Se criássemos uma “escala de conversas” que tivesse, como grau zero, a absoluta ausência de comunicação verbal entre duas pessoas e, como grau máximo, essas duas pessoas abrindo suas almas uma para a outra, o grau um dessa escala seria, sem dúvida, a conversa sobre o tempo. De fato, a conversa sobre o tempo representa o limite entre conversar e não conversar: é impossível conversar com menos intensidade do que quando se conversa sobre o tempo. Consideramos, inclusive, que se uma pessoa não quer conversar sobre o tempo, é porque ela não quer conversar sobre nada, pura e simplesmente.

É fácil comprovar o que foi mencionado aqui. Basta que você se dirija à porta da sua casa (se você mora em casa) ou ao elevador do seu prédio (se você mora em prédio) e espere até cruzar com alguém que você nunca viu na vida, ou só conhece de vista. Quando encontrar tal pessoa, busque alguma forma de entabular conversa com ela. Você logo notará que o primeiro assunto que acode nessa situação é o trabalho de São Pedro (você notará em seguida [mas isso é de escasso interesse] que você passará a ser conhecido como o “louco do elevador” do seu prédio).

Não é à toa, porém, que o tempo é um assunto de interesse tão geral. Nas situações em que nos é recomendado ou exigido manter uma conversa com totais estranhos, a pergunta “será que chove?” aparece como uma das mais absolutamente inofensivas que podemos fazer. Serão raríssimos os casos em que um estranho se sente ofendido por nós termos perguntado a ele se ele acha que vai chover ou não. Pode até ser que esse estranho tenha, sem que nós saibamos, algum interesse na chuva ou na não-chuva, de forma que o nosso questionamento quanto às probabilidades da precipitação se configure a ele como uma afronta. Mas mesmo nesses raros casos as pessoas costumam ter a sensibilidade de perceber que nós não poderíamos saber de antemão desse interesse delas, e perdoam-nos a “ofensa”.

A indagação sobre a probabilidade de que chova, além disso, tem provavelmente uma origem bastante arcaica. Quando a humanidade ainda era pouco menos do que um bando de felizes macacos incestuosos que plantavam comida, a chuva era de importância vital para a sobrevivência do grupo. Nesse contexto, a prolongada ausência de chuva podia significar, num futuro perigosamente próximo, a escassez de vegetais e pastos e uma época de miséria pela frente. Naquela época, a resposta à pergunta “será que chove?” poderia motivar preocupações naqueles que não ouvissem imediatamente um sonoro “sim, é claro!” – uma sensação que não deve ser de todo estranha ao atual governador paulista. Mas não devia ser só isso: quando alguém se mostrava preocupado pelas chuvas diante de um estranho, poderia estar mostrando ao estranho que os dois estavam num mesmo nível na hierarquia social, e tentando reforçar esse laço. Poderia ser que a pessoa, ao perguntar “será que chove?”, quisesse dizer, na verdade: “eu sou como você: se faltar água, nós estamos todos fudidos igual”.

Esse aspecto da pergunta sobre o tempo, creio, ainda se mantém de certa forma. Se eu disse anteriormente que perguntar sobre a meteorologia é uma das perguntas mais inofensivas que podemos fazer a um desconhecido, é porque sabemos que esse desconhecido, simplesmente por ser humano, é como nós impotente diante dos fenômenos naturais. A vida em sociedade frequentemente nos leva a esquecer que todos os outros com quem convivemos são animais da mesma espécie. Ainda que a sociedade nos diferencie, biologicamente temos muito em comum: todos nós comemos, defecamos, respiramos, nos reproduzimos e morremos. No entanto, esses assuntos não são considerados adequados para conversas corriqueiras. Se você perguntar ao seu vizinho sobre os hábitos alimentares ou sexuais dele, é bem provável que ele não te responda sorrindo (se responder), por considerar isso, não sem razão, uma invasão da privacidade dele. Ele também não ficaria feliz em ser lembrado, durante uma breve conversa de elevador, de que ele, todas as pessoas que ele ama e, pensando bem, todo mundo que está vivo um dia vão morrer.

Faz-se necessário, portanto, que busquemos em nosso repertório alguma coisa que possa nos equiparar socialmente àquele estranho que está no elevador sem, ao mesmo tempo, lembrar a ele que nós dois não passamos de animais efêmeros. A conversa sobre o tempo, se você pensar bem, é uma solução de notável elegância a esse impasse.